"Inovação só existe quando se cria valor"
Para o professor de Gestão de Inovação na Universidade de Brighton, o Brasil deve aperfeiçoar as práticas de gestão da inovação para continuar crescendo
Howard Rush, 45 anos, é um acadêmico com pé no mercado. Ele se preocupa em estabelecer um fluxo de idéias constante entre as salas de aula e a indústria. Segundo Rush, é assim que a academia cumpre seu papel de forma mais plena. “A inovação só existe de fato quando se cria algum valor a partir da aplicação prática de uma idéia”, diz. O professor estará no Brasil no dia 25 de junho para uma palestra organizada pelo British Council sobre as boas práticas da Gestão da Inovação.
Howard Rush - Quando as pessoas falam em inovação, elas geralmente se referem a uma idéia nova, diferente e criativa. Mas a inovação só existe de fato quando se cria algum valor a partir da aplicação prática de uma idéia. E idéias criativas não são necessariamente novas e originais. Elas só precisam ser novas para quem as quer aplicar – seja o usuário dessa idéia uma pessoa, uma empresa ou um país. Se fôssemos dar um nome para a parte criativa de uma inovação poderíamos chamá-la de invenção. Mas a inovação mesmo só surge quando a invenção é colocada em prática e passa a gerar valor.
Rush - Uma instituição acadêmica de ciência social, da qual eu sou presidente, sediada na Universidade de Brighton. Lá, 25 colaboradores se dedicam ao estudo dos processos que dão origem à inovação. Com o conhecimento acumulado a partir desses estudos a gente trabalha para aprimorar os processos de gestão da inovação. Há uma crença bastante disseminada de que a inovação brota naturalmente de pessoas criativas. Nós acreditamos na sistematização dos processos de criação, identificação e gestão da inovação. Um exemplo de como a inovação pode atrapalhar vem da indústria fonográfica. A digitalização de músicas não foi criada pelas gravadoras, veio de fora, mas foi adotada e desenvolvida de forma colaborativa e teve efeitos perturbadores, se não devastadores para a indústria do ramo. As empresas que não se empenharem para identificar as inovações que podem vir a atrapalhar os seus negócios podem ter sérios problemas no futuro.
Rush - Você deve conhecer a velha e desagradável piada de que o Brasil é e sempre será o país do futuro. Mas eu acredito que o futuro chegou. Uma das razões que me permite dizer isso é o estendido período de estabilidade política e econômica, que já dura cerca de 10 anos, que o país vive hoje. E a estabilidade é uma precondição para a inovação. Ainda há muito a ser feito, mas sinto que o país está no caminho certo. Já existem histórias famosas de empresas brasileiras mundialmente conhecidas por suas inovações como é o caso da Petrobrás, da Embraer e das sandálias Havaianas. Mas sinto que pequenas e médias empresas brasileiras ainda não estão tão cientes quanto deveriam estar da importância da inovação em seu sucesso no futuro. A sobrevivência desses negócios em médio e longo prazo está intimamente ligada à inovação.
Rush - Não acho que essa seja uma dificuldade que existe apenas no Brasil. No CENTRIM, que fica na Inglaterra, unir a academia à indústria é um dos nossos principais objetivos. A academia sempre buscou formas de criar empresas e se capitalizar a partir de idéias criadas por engenheiros e cientistas em seus laboratórios. O problema é que as idéias só ganham valor quando atendem a uma demanda de mercado. E o laboratório de uma universidade não é o ambiente ideal para se identificar demandas de mercado. Precisamos melhorar a relação entre academia e indústria até que haja um fluxo contínuo de idéias de um para o outro.
Rush - Há três anos apresentei a ProfitNet para um grupo de empresários brasileiros na Bahia. Eles ouviram atentamente a minha apresentação, mas me disseram que o programa não funcionaria no Brasil por que os empreendedores não acreditam que seus colegas iriam compartilhar seus projetos de negócios. Mas hoje acho que a situação mudou, em parte graças a experiência que tivemos com a ProfitNet na África do Sul, um país em desenvolvimento que, como o Brasil, estava cético quanto disposição de seus empresários de compartilhar práticas positivas. O sucesso da nossa experiência lá diminuiu o ceticismo do empresariado brasileiro. O interesse manifestado por outros países em desenvolvimento, como a Lituânia, também animou o Brasil. Hoje, já temos algumas instituições de ensino superior e agências governamentais brasileiras interessadas pelo projeto. Mas por enquanto não podemos dar os nomes.
Rush - Todas as atividades inovadoras precisam de recursos - sejam eles de pessoal, de tempo ou de competência administrativa. Esses recursos dependem de investimentos financeiros. Portanto, se apresentam como primeiro obstáculo para os países mais pobres. Para ajudar a identificar e vencer todos os outros obstáculos, comuns tanto a países desenvolvidos como países em desenvolvimento esses obstáculos, gosto de dividir o processo de inovação em cinco fases.
A primeira é a chamada fase da procura. Nela, buscamos o maior número possível de idéias promissoras. A segunda é a fase da exploração dessas idéias promissoras. Nela destrinchamos as idéias escolhidas na primeira fase para entendê-las e selecionar as que têm mais chances de vir a ter valor de inovação. A terceira é a do investimento de tempo e verba nas melhores idéias para desenvolvê-las o máximo antes de sua execução, que é a quarta fase. Na quinta e última fase, damos início a um processo de otimização da execução das boas idéias.
Rush - É fundamental. No Brasil, por exemplo, o programa com o qual estamos envolvidos tem como parceiros o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), além do British Council. Os dois órgãos públicos envolvidos na empreitada têm mostrado uma visão bastante esclarecida sobre a importância de políticas de inovação. Por meio desses órgãos, atividades como cursos preparatórios para novos empreendedores e programas que premiam boas práticas de inovação se espalham com mais eficiência.
Rush - O estudo da gestão da inovação é multidisciplinar e, nesse sentido, a psicologia é importante por tratar dos agentes da inovação: as pessoas. Mas sinto que quanto mais plural a abordagem da inovação, melhor sua compreensão e evolução. Buscamos diferentes competências em engenheiros, economistas e sociólogos que trabalham conosco, mas todos devem falar a mesma língua para que a discussão culmine no aprimoramento da gestão da inovação.

