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Quando a Empresa Naufraga...

De cada cem brasileiros adultos, perto de 13 desenvolvem atividades empreendedoras

Vale a pena tentar de novo?

Para 21% dos donos de novos negócios no Brasil, a resposta é sim. Eles já vêm de uma experiência anterior

A propaganda que diz ´sou brasileiro e não desisto nunca´ reflete a situação do empreendedorismo no País. Em 2007, cerca de 15,25 milhões de adultos comandavam um negócio próprio em estágio inicial, com até 42 meses de vida. Desses, 3,27 milhões, ou 21%, estavam tentando ter sucesso com um novo empreendimento, depois de terem comandado empresas que naufragaram.

Os dados são do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), estudo realizado em 42 países pela London Bussiness School e pelo Babson College. No Brasil, a chamada Taxa de Empreendedores Iniciais (TEA) foi de 12,72 em 2007. Isso significa dizer que de cada cem brasileiros adultos, de 18 a 64 anos, perto de 13 desenvolviam atividades empreendedoras.

No Brasil, o índice é maior do que em lugares como Reino Unido e Estados Unidos, mas inferior ao da Argentina. Motivo: quando a economia vai bem, as pessoas só montam um negócio se enxergam oportunidades. Mas no Brasil e na Argentina são comuns os casos em que as pessoas perdem o emprego e, sem alternativas, montam qualquer negócio para tentar sobreviver.

Despreparadas, muitas vêem o empreendimento falir e depois são levadas a tentar de novo. São o que o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) classifica como ´empreendedores em série´. ´Existe um índice absurdo de mortalidade nas empresas porque a pessoa é levada a empreender por necessidade´, diz o consultor de orientação empresarial do Sebrae-SP, Gilberto Rose.

Rose afirma que são comuns os casos de quem, após a falência, prometa nunca mais comandar outra empresa. Mas há quem aprenda com os erros. Esse aprendizado, apesar de doloroso, dá origem a negócios com mais chances de sobreviver. É o caso da New Growing, empresa da área de criação de marcas aberta pelo designer Hélio Moreira em 2005. Consolidado no mercado, o negócio aproveitou a experiência anterior com uma empresa de camisetas que fechou as portas.

´Tinha 20 anos na época e, com dois amigos, abri uma confecção para produzir peças com estampas ligadas a esportes de aventura´, conta Moreira, hoje com 31 anos.

A aventura empreendedora durou um ano e oito meses. Os sócios encontraram dificuldades para vender as camisas em lojas especializadas. ´Tínhamos um bom produto, mas tentamos disputar um mercado muito concorrido´, lamenta. ´Além disso, a má administração fez com que faltasse capital de giro.´ O resultado foi uma dívida de R$ 10 mil e a decisão de fechar as portas antes que o problema aumentasse. ´Na época, percebi que o meu forte era criar estampas.´

Após fazer MBA na área de construção de marcas, o designer voltou a investir em um negócio próprio. ´Mas no caso da New Growing, fiz tudo diferente. Procurei o Sebrae e montei um plano de negócios´, afirma. ´Tudo o que faltou na fábrica de camisetas eu fiz agora.´

SOBREVIVÊNCIA - Iniciantes precisam de planejamento

Ter espírito empreendedor não basta para comandar uma empresa. Planejamento no início do negócio é determinante para a sua sobrevivência. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que, entre os empreendedores que fecharam ou venderam um negócio ano passado, 39,4% alegaram que ele não era lucrativo. Outros 26% disseram ter dificuldades para obter recursos financeiros.

´Falta planejamento´, resume o consultor Donizete José da Silva, da Atco Treinamento e Consultoria. ´A pessoa monta a empresa, mas não planeja o fluxo de caixa, não reserva recursos para o capital de giro, nem calcula quanto terá que pagar de impostos´, explica.

Silva lembra que empresas que estão começando passam por período de adaptação. ´Normalmente, só após seis meses o empresário consegue formar uma clientela mais sólida. Até lá, é preciso ter capital para tocar os negócios.´

Um dos itens mais sensíveis é a formação de preços. Segundo ele, os empresários costumam definir preços com base na concorrência. ´O administrador cobra muito alto, ou muito baixo, para atrair clientes. Mas ele precisa definir os valores com base nos custos do negócio.´

Outra dificuldade é estabelecer uma rotina de trabalho. O consultor afirma que administrar um negócio exige mais dedicação do que ser apenas funcionário de outra empresa. ´A pessoa precisa pensar no negócio 24 horas por dia.´

O consultor de orientação empresarial do Sebrae-SP, Gilberto Rose, aponta um erro comum entre os empresários de primeira viagem: a união entre as despesas da empresa e da família: ´É importante separar os gastos muito bem desde o início´. ´Além disso, não dá para ficar apenas atrás de um balcão ou de um caixa. O proprietário do negócio precisa lidar diretamente com o consumidor.´

Silva e Rose defendem a formulação de um plano de negócios, detalhando os diferentes aspectos de um empreendimento, do dinheiro a aplicar até os preços das mercadorias. Ao avaliar o mercado e estimar despesas, o empreendedor pode até desistir — o que, aliás, não é ruim. ´Se você vai montar uma empresa, desista se for o caso´, ensina Rose. ´Mas não monte um negócio apenas para quebrar depois´, completa.

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=540574

Data: 24/05/08

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